A Menina que Colecionava Palavras
Uma menina tímida começa a colecionar palavras bonitas e descobre o poder da comunicação.

Lia tinha sete anos e morava em Olinda, numa rua de paralelepípedos que fazia “toc-toc” quando alguém passava apressado. A casa dela tinha um portão azul descascado e um quintal cheio de cheiros: o perfume do manjericão, a terra molhada depois da chuva e o doce das mangas maduras que caíam sozinhas no chão.
Lia era do tipo que falava baixinho, como se as palavras precisassem sair de fininho para não acordar ninguém. Na escola, quando a professora perguntava “Quem quer ler?”, a mão de Lia ficava colada na carteira, quietinha. Na hora do recreio, ela preferia observar: os meninos correndo atrás da bola, as meninas trocando figurinhas, o vento bagunçando as folhas da amendoeira.
Só que, dentro da cabeça de Lia, existia um barulho diferente. Um barulho bonito, feito de pensamentos, histórias e… palavras. Ela gostava de palavras como quem gosta de conchas na praia: cada uma tinha um desenho, um som, uma surpresa.
Certa tarde, voltando da escola com a mochila pesando de cadernos, Lia parou na venda do Seu Anselmo. Lá, perto do caixa, havia uma caixa de papelão cheia de livros velhos. Um deles tinha a capa amarela e um título que parecia sorrir: “Dicionário Pequeno, Tesouro Grande”.
— Posso folhear? — Lia perguntou tão baixo que quase virou segredo.
Seu Anselmo ajeitou os óculos e sorriu.
— Pode sim, menina. Livro não morde. Livro abraça.
Lia abriu o dicionário e sentiu um cheiro de páginas antigas, como bolo saindo do forno. As palavras estavam organizadas em ordem, mas ela não ligava para ordem. Ela queria beleza.
De repente, uma palavra pulou nos olhos dela como um vaga-lume:
“Encantamento.”
Lia repetiu em silêncio: en-can-ta-men-to. Parecia uma música.
— Essa é bonita, né? — comentou Seu Anselmo.
Lia assentiu e, sem pensar muito, tirou do bolso um bloquinho amassado que usava para desenhar. Escreveu “ENCANTAMENTO” com letra caprichada, como se fosse guardar um pedacinho de sol.
Naquele dia nasceu a coleção de Lia.
Em casa, ela arrumou uma caixinha de madeira que era da vó Nadir. A caixinha tinha uma flor entalhada na tampa e fazia “crec” ao abrir. Lia colocou dentro papéis dobrados com palavras escritas: “encantamento”, “saudade”, “brilho”, “gentileza”, “paz”.
— E pra que serve essa caixa? — perguntou a mãe, dona Carol, mexendo um feijão cheiroso na panela.
Lia deu de ombros, tímida.
— É… meu tesouro.
A mãe limpou as mãos no avental e se abaixou para ficar na altura da filha.
— Tesouro é coisa importante. Você vai cuidar bem dele?
Lia concordou. Cuidaria como quem cuida de filhote.
No dia seguinte, na escola, a professora Márcia anunciou:
— Turma, semana que vem teremos a Feira das Histórias! Cada um vai contar uma história curtinha, pode ser inventada ou lembrança de casa.
A sala explodiu em comentários.
— Eu vou contar do meu cachorro! — Eu vou falar do meu avô pescador!
Lia sentiu o estômago apertar, como quando a gente desce uma ladeira rápida de bicicleta. Ela pensou: “Eu não consigo. Eu travo.” E, mesmo assim, uma palavra brilhou na cabeça dela: “coragem”.
Ela escreveu “CORAGEM” e colocou na caixinha, mas a palavra pareceu pequena perto do medo.
Nos dias seguintes, Lia passou a procurar palavras como quem procura estrelas. Ela escutava conversas e pescava expressões.
Na padaria, uma senhora falou:
— Que pão fofinho!
“Fofinho” entrou na coleção, porque fazia Lia sorrir.
Na rua, um menino mais velho ajudou uma criança a amarrar o tênis e disse:
— Pronto, amigo. Agora tá firme.
“Firme” também virou palavra guardada.
Na biblioteca da escola, a bibliotecária, dona Neide, viu Lia folheando livros.
— Você gosta de palavras? — perguntou.
Lia ficou vermelha, mas respondeu:
— Eu… coleciono.
Dona Neide arregalou os olhos, encantada.
— Que coisa linda! Então me diga: qual sua palavra favorita?
Lia pensou. A favorita mudava sempre. Mas naquele dia ela disse:
— “Gentileza.”
Dona Neide sorriu como quem abre uma janela.
— Sabe uma ideia? Use suas palavras como pontes. Ponte serve para ligar um lugar ao outro.
Lia guardou aquela frase com cuidado, sem saber ainda como.
Chegou a semana da Feira das Histórias. A sala foi arrumada com cartazes coloridos, desenhos de personagens e um varal de papel onde pendiam textos. As cadeiras foram colocadas em círculo, e no centro ficou um banquinho. Quem sentasse nele contaria sua história.
Quando Lia viu o banquinho, o coração dela começou a bater feito tambor de maracatu: tum-tum-tum.
As apresentações começaram. Teve história engraçada, história de susto, história de saudade. A turma aplaudia, e a professora Márcia dizia:
— Muito bem! Voz alta e clara!
Até que a professora olhou a lista.
— Agora… Lia.
O silêncio foi como uma onda que sobe e quebra no peito. Lia levantou devagar. As pernas pareciam macarrão cozido. Ela caminhou até o banquinho, sentou, e de repente todas as pessoas viraram olhos: olhos curiosos, olhos animados, olhos esperando.
Lia abriu a boca, mas a voz não saiu. O ar ficou preso. A história que ela tinha pensado em casa desapareceu como sabonete escorregando.
Na primeira fila, o colega Davi cochichou, sem maldade, mas alto o bastante:
— Ela não vai falar nada?
Lia sentiu o rosto queimar. A vontade era sumir dentro da mochila.
A professora Márcia se aproximou com cuidado.
— Lia, pode começar do seu jeito. Sem pressa.
Lia olhou para o chão e viu um pedacinho de papel que tinha caído do bolso da mochila. Era da sua coleção. Ela se abaixou e pegou. Estava escrito: “ENCANTAMENTO”.
E, como se aquela palavra fosse uma chave, outra lembrança se abriu: a voz de dona Neide dizendo “Use suas palavras como pontes.”
Lia respirou fundo e tirou do bolso a caixinha de madeira. Ela não tinha planejado levar, mas ali estava, pesada e confortável na mão.
— Eu… eu trouxe meu tesouro — Lia disse, finalmente, numa voz ainda pequena, mas verdadeira.
A turma inclinou o corpo para frente.
— Tesouro? — perguntou Davi.
Lia abriu a caixinha. Os papéis dobrados pareciam passarinhos dormindo.
— Eu coleciono palavras bonitas — explicou. — Quando eu fico com vergonha, eu guardo uma palavra para me ajudar.
A professora Márcia abriu um sorriso.
— Que ideia especial. Quer mostrar para nós?
Lia assentiu. Suas mãos tremiam um pouquinho, mas ela pegou um papel e leu:
— “Gentileza.”
Ela olhou para os colegas.
— Gentileza é quando alguém faz o bem sem precisar de troféu.
Algumas crianças balançaram a cabeça, entendendo.
Lia pegou outro papel.
— “Saudade.”
Ela engoliu seco.
— Saudade é quando o coração chama alguém que não tá perto.
A sala ficou quieta, mas não era um quieto de julgamento. Era um quieto de atenção.
Lia pegou mais um.
— “Coragem.”
A palavra saiu um pouco mais alta.
— Coragem… é quando a gente vai mesmo com medo.
Nesse momento, Lia sentiu que algo mudava. As palavras eram como degraus. Ela subia um de cada vez.
Ela viu, no canto, um cartaz com um desenho de ponte que a professora tinha colocado para enfeitar. A ponte parecia dizer: “Você consegue atravessar.”
Então Lia tomou uma decisão. Em vez de contar uma história tradicional, ela contaria a história da própria coleção.
— Um dia eu encontrei a palavra “encantamento” num livro velho. E eu pensei: se uma palavra consegue brilhar, talvez eu também consiga.
A voz dela ficou mais firme, como o menino da rua dizia ao amarrar o tênis.
— Aí eu comecei a procurar palavras pela cidade. Na padaria, no mercado, na rua. E cada palavra virou uma pedrinha de um caminho.
Ela parou um segundo, sentindo o coração. O medo ainda estava lá, mas menor, como formiga perto de elefante.
— Hoje, eu quero dar uma palavra pra cada um.
A turma fez “oooh” de surpresa.

Lia levantou a caixinha, abriu bem e começou a distribuir os papéis, como quem entrega sementes.
— Davi, pra você: “respeito”.
Davi pegou e leu, arregalando os olhos.
— Respeito… — ele repetiu, e pareceu pensar no cochicho que tinha feito.
— Sofia, pra você: “alegria”.
Sofia sorriu e apertou o papel na mão.
— João, pra você: “paciência”.
João riu.
— Minha mãe vive falando isso!
As crianças começaram a pedir:
— Tem pra mim? — Eu quero uma bonita!
Lia distribuiu mais: “amizade”, “cuidado”, “esperança”, “firmeza”. E, enquanto distribuía, ela falava o que achava que cada palavra podia fazer.
— “Cuidado” é quando a gente olha para o outro como quem segura coisa frágil. — “Amizade” é quando a gente não precisa fingir.
A professora Márcia tinha os olhos brilhando.
— Lia, você acabou de fazer uma coisa muito importante — ela disse. — Você usou palavras para aproximar as pessoas.
Lia respirou, e dessa vez o ar entrou leve, sem tropeçar.
No final, a turma aplaudiu. Não foi um aplauso de “perfeição”. Foi um aplauso de “a gente te ouviu”. Lia sentiu uma alegria quieta, mas enorme, enchendo o peito como vento em pipa.
Depois da feira, no recreio, Davi se aproximou de Lia com o papel “respeito” na mão.
— Lia… eu falei aquela coisa lá porque eu tava nervoso também. Desculpa.
Lia olhou para ele e, pela primeira vez em muito tempo, respondeu sem esconder a voz.
— Tudo bem. Obrigada por me dizer.
Davi apontou para a caixinha.
— Você ainda tem palavra aí?
Lia riu.
— Tenho. Mas agora eu acho que vou começar outra coleção também.
— De quê?
Lia pensou, olhando o pátio: crianças conversando, correndo, trocando lanches.
— De conversas. Porque palavra guardada é boa… mas palavra compartilhada vira ponte.
Naquela noite, em casa, Lia abriu a caixinha. Ela estava mais vazia, e isso, em vez de dar tristeza, dava um orgulho manso. Lia pegou um papel novo e escreveu bem grande:
“COMUNICAÇÃO.”
Ela não sabia explicar com palavras difíceis, mas sentia no corpo: comunicar era deixar o coração aparecer um pouquinho, do jeito que dava, para que o outro pudesse enxergar.
No dia seguinte, quando a professora perguntou quem queria ler, Lia não levantou a mão de uma vez. Primeiro ela respirou. Depois, devagar, como quem aprende a pedalar sem rodinha, ela ergueu o braço.
— Eu posso — disse.
E a palavra “coragem”, lá dentro, sorriu.
✨ Moral da História
“Palavras usadas com gentileza e coragem podem virar pontes que aproximam as pessoas.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1Por que a Lia começou a colecionar palavras bonitas?
- 2Como você acha que a Lia se sentiu quando a professora chamou o nome dela para falar na frente da turma?
- 3Qual palavra você gostaria de ganhar da caixinha da Lia e por quê?
- 4O que mudou na sala quando a Lia começou a distribuir palavras para os colegas?
- 5Se você tivesse uma “caixinha de palavras”, quais três palavras colocaria dentro?
O que achou desta história?
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