Fagulha, o Dragãozinho de Porcelana, e a Coragem Delicada

No Mercado das Quinquinhas, tudo tinha uma segunda chance. Havia colheres que já mexeram muitos bolos, chapéus que viram carnavais antigos e brinquedos que ainda guardavam risadinhas dentro das dobrinhas.
No alto de uma prateleira, bem entre um bule de chá azul-marinho e uma caixinha de música, morava Fagulha: um dragãozinho de porcelana cor turquesa, com desenhos brancos de flores no corpo e um cachecol vermelho tricotado em volta do pescoço.
Fagulha era pequeno e muito bonito. Também era… muito preocupado.
— Se eu cair, eu quebro — sussurrou ele, olhando lá embaixo. — E se eu quebrar, acabou. Pronto. Fim de Fagulha.
O bule de chá soltou um “hum” importante, como se fosse um velho professor.
— Você não é feito para cair. Você é feito para enfeitar, contar história e aquecer olhares — disse o bule.
— Fácil falar quando você tem alça forte! — resmungou Fagulha, encolhendo as asinhas de porcelana.
Naquele dia, Dona Marlene, a dona da barraca, estava animada. Ela arrumava as coisas cantando baixinho, enquanto Chico, o gato listrado, passeava como se fosse o guarda do mercado.
De repente, chegaram três crianças com uma prancheta nas mãos.
— Bom dia! A gente tá montando um “Museu das Coisas com História” na escola — explicou uma menina de tranças, chamada Iara. — Pode ser emprestado ou comprado baratinho. A professora disse que cada objeto tem uma aventura.
Dona Marlene abriu um sorriso.
— Aqui tem aventura até em tampa de panela! Olhem com calma.
Fagulha se esticou um pouquinho para ver. “Museu… escola… crianças…”, ele pensou, com o coraçãozinho batendo dentro da porcelana. E se escolhessem ele? Seria bom… mas também seria perigoso. Escola tinha mochila, corredor, gente apressada.

— Olha aquele dragãozinho! — Iara apontou para a prateleira. — Ele parece… gentil.
Fagulha quase caiu só de ouvir.
— Gentil eu sou. Mas frágil eu também sou! — cochichou para o bule.
Antes que o bule respondesse, um caminhão passou na avenida bem ao lado do mercado. O chão tremeu: um “VUUUM” forte, daqueles que fazem o peito vibrar.
A prateleira de madeira deu um tranco.
— Ai! — gritou a caixinha de música.
Os pratos empilhados começaram a escorregar, um por um, como se estivessem brincando de escorregador… só que era uma brincadeira perigosa.
Chico, o gato, arregalou os olhos e pulou para trás.
— Vai cair! — berrou uma colher de pau.
Fagulha congelou. O medo subiu nele como gelo.
“Se eu me mexer, eu quebro. Se eu ficar, os pratos quebram. E a Dona Marlene vai ficar triste. E as crianças… vão lembrar daqui como um lugar de desastre.”
Ele olhou para o próprio corpo turquesa. “Eu sou delicado. Mas delicado não quer dizer inútil.”
— Bule… me ajuda a pensar! — pediu Fagulha, com a voz tremida.
— Pense com cuidado. Coragem não é dar trombada no perigo. Coragem é escolher o melhor jeito de proteger — respondeu o bule.
Fagulha respirou fundo (do jeito que dragões fazem, mesmo sendo de porcelana). Sentiu um calorzinho acender no peito: uma chama azul pequena, do tamanho de uma vaga-lume.
— Cachecol… você topa ser corda? — perguntou ele ao próprio cachecol.
— Se for para salvar alguém, eu topo! — pareceu responder o tecido, balançando.
Fagulha deslizou devagarinho até a beirada da prateleira. Bem devagar. Tão devagar que até a poeira teve tempo de se assustar.
Ele prendeu uma ponta do cachecol numa dobradiça da prateleira e jogou a outra ponta para baixo, onde havia um rolo de fita grossa que Dona Marlene usava para amarrar caixas.
— Fita, acorda! — chamou Fagulha. — Preciso de você agora!
O rolo de fita se desenrolou um pouco, como se espreguiçasse.
— O que foi? — perguntou, sonolento.
— Abraça aquela pilha de pratos! Rápido, mas com jeitinho!
O rolo de fita entendeu. Usando o cachecol como caminho, ele subiu alguns centímetros e, com uma volta firme, deu a volta nos pratos, segurando-os como um cinto.
Mesmo assim, um prato ainda escapou, ficando na pontinha, pronto para cair.
Fagulha esticou as patinhas de porcelana e encostou no prato. Era pesado e liso. A prateleira tremia mais um pouco.
— Aguenta… aguenta… — ele sussurrou, sentindo a pressão nos braços.

O prato parou. Não caiu.
Mas, ao puxar com cuidado, a pontinha do rabo de Fagulha raspou na madeira e fez um “tic” seco.
Uma lasquinha bem pequena se soltou.
Fagulha sentiu a falta como quem sente um dente bambo.
— Eu… eu quebrei? — ele perguntou, assustado.
— Você se machucou um pouquinho — disse a caixinha de música, com a voz baixinha. — Mas você salvou a gente.
O pior ainda não tinha passado.
Ao lado, um pote de vidro cheio de botões coloridos começou a deslizar. Era o pote dos “botões de mil histórias”, que Dona Marlene guardava para consertar roupas e bonecos.
Se aquele pote caísse, os botões iam rolar pelo chão, sumir nos cantos, e talvez nunca mais formassem pares.
Fagulha engoliu o medo.
— Fita! Segura os pratos. Cachecol, vem comigo! — disse ele.
Com o cachecol ainda preso, Fagulha usou o restante do tecido como uma alça. Ele passou por trás do pote e puxou devagar, como se estivesse abraçando o vidro.
O pote escorregou… mas parou, encostando com segurança na parede da prateleira.
O tremor passou. O mercado voltou ao som normal: passos, vozes, uma risada ao longe.
Iara e as outras crianças estavam com os olhos redondos.
— Você viu? — murmurou um menino. — Parecia que… os objetos se ajudaram.
Dona Marlene, que tinha ido atender um cliente por um minuto, voltou e viu a cena: pratos presos pela fita, pote seguro, e Fagulha ofegante (sim, dragões de porcelana também ofegam quando ficam nervosos).
— Meu Deus do céu… quase uma tragédia — ela disse, colocando a mão no peito. — Quem foi o anjo cuidadoso aqui?
Fagulha queria dizer “fui eu!”, mas não saía som para humanos ouvirem. Mesmo assim, ele ficou ereto, do jeito mais corajoso que um dragãozinho frágil conseguia.
Iara apontou.
— Dona Marlene… o dragãozinho tá com uma lasquinha no rabo.
Dona Marlene se aproximou, com delicadeza. Pegou Fagulha como quem pega uma concha rara na areia.
— Ah, meu valente — ela sussurrou. — Você tem coração grande.
Ela abriu uma caixinha de conserto, tirou uma colinha especial e um pozinho dourado brilhante.
— Quando algo precioso trinca, a gente não precisa esconder a marca. A gente pode consertar com carinho e lembrar da coragem que aconteceu — explicou.
Dona Marlene passou a cola na pontinha do rabo e, por cima, soprou o pozinho dourado, como se desenhasse um raio de sol na porcelana.

Fagulha olhou para o próprio rabo: agora havia uma linha dourada bem fininha, como um detalhe de rei.
Ele não estava “acabado”. Ele estava… diferente. E aquela diferença contava uma história.
Iara sorriu.
— A gente queria levar um objeto com história para o museu. Acho que… achamos.
Fagulha sentiu o medo chegar de novo, pequenininho. Escola, mochila, corredor…
Mas, dessa vez, ele sabia outra coisa também: coragem não era ser duro como pedra. Coragem era ser delicado e, mesmo assim, proteger o que importa — com cuidado, com ajuda e com carinho para se consertar depois.
Então ele ajeitou o cachecol vermelho, levantou o queixo e pensou: “Eu vou. Devagarinho. Mas eu vou.”
E, no Mercado das Quinquinhas, até o bule de chá pareceu sorrir com o vapor imaginário do orgulho.
✨ Moral da História
“Coragem não é ser indestrutível: é agir com cuidado pelo que importa, mesmo sendo delicado, e aceitar ajuda para se consertar.”
Vamos Conversar?
Perguntas para conversar com a criança após a leitura:
- 1O que você acha que deixou Fagulha com mais medo: cair e quebrar ou ver os outros objetos em perigo?
- 2Que atitude corajosa Fagulha tomou, mesmo sendo frágil?
- 3Quando você fica com medo, o que te ajuda a pensar com calma e escolher um jeito seguro de agir?
- 4Se você tivesse uma “linha dourada” de uma coragem que já viveu, que história ela contaria?
O que achou desta história?
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